Artigo – Voluntariado nos anos de 2010: a década em que perdemos contato?

18 de fevereiro de 2010 · Imprima este texto

autor: Armindo dos Santos de Sousa Teodósio**

O ano de 2010 chegou com graves perdas no campo da ação social e, para os pessimistas, isso pode ser sinal de tempos mais obscuros pela frente. Digo isso pelo falecimento de Zilda Arns e milhares de haitianos. No entanto, nessa década que se inicia, os desafios para a ação voluntária são redobrados. As esperanças, pelos menos da minha parte, também são muitas, ainda que parafraseando a música de Paul Weller, o mundo insista em me dizer que não.

Comecemos nossa discussão pelas promessas mal cumpridas de pouco mais de duas décadas de intensa difusão e divulgação de práticas de voluntariado no Brasil e no mundo. Nesse turbilhão de esforços, somaram-se a multiplicação de organizações da sociedade civil, a estruturação de programas de incentivo ao trabalho voluntário por parte de organismos internacionais, governos e empresas e uma atenção redobrada da mídia pelo tema. Paralelo a isso, os problemas sociais e ambientais se avolumaram e se tornaram mais agudos.  Os que duvidam disso devem refletir se existe tranqüilidade nos grandes centros urbanos quando um temporal se anuncia, para falar apenas do meio ambiente.

Junto com esse pacote de uma suposta modernização da ação social através do voluntariado, expressões e práticas como caridade, assistencialismo, piedade, ajuda desinteressada, esmola, compaixão e filantropia se tornaram verdadeiros palavrões no convívio contemporâneo. No seu lugar, surgiram neologismos nada novos como transformação social, redes, gerenciamento, resultados, consciência social, relação ganha-ganha e parcerias, para citar apenas algumas das lenga-lengas do discurso politicamente correto dos gestores de programas de voluntariado, seja nas ONGs, em empresas ou mesmo em órgãos de governo.

O que toda essa movimentação não consegue encobrir é que nada é mais confortável para os medianos de qualquer classe social (e não só da mediana classe média) do que trocar os jargões do discurso por pérolas pseudomodernas. Os simplistas e desconfiados de plantão já vão dizer que tudo não passou de discursos vazios ou fachadas para dotar de legitimidade e encobrir práticas nefastas de empresas pouco interessadas em seus stakeholders, acobertar ONGs nada transparentes, democráticas e eficientes e desviar a atenção de governos que dão com uma mão o que roubam com a outra. Se fosse apenas dissimulação de práticas incorretas, tudo estaria correndo muito bem, pois como o discurso rasteiro da responsabilidade social empresarial, do controle social sobre as organizações da sociedade civil e da moralização da política teima em insistir, bastaria apenas adotar mais e melhores práticas de gestão e governança. As mudanças viriam, mais cedo ou mais tarde, naturalmente. A mídia, nesse contexto, teria o papel de mostrar tudo a todos, como se a sociedade contemporânea estivesse realmente interessada em saber sobre tudo e todos o tempo todo. Infelizmente ou felizmente, a questão me parece mais complexa e exige respostas mais corajosas e ousadas.

Da modernização do voluntariado surgiu uma concepção pseudomoderna que tenta, mesmo que negue veementemente, inclusive através de abordagens exageradamente psicologizantes e de auto-ajuda disfarçada, tutelar sentimentos e a própria sociabilidade contemporânea. Assim, não podemos ter piedade ou praticar a caridade, apesar de milhões continuarem a desenvolvê-las no dia-a-dia (quem efetivamente nunca mais deu esmolas nas ruas?!). No lugar desses sentimentos tidos como ultrapassados, pois remontam à práticas seculares de ajuda dos ricos aos pobres no Brasil e no mundo, colocou-se o mantra do gerencialismo, com seu pragmatismo a toda prova, instrumentalidade radical e promessa de resultados, que nunca vêm; será por que nunca vêm?! Nunca chegam a ser alcançados porque a ação social exige muito mais do que gestão e isso poucos articuladores de programas de voluntariado, apesar de duas décadas de cabeçadas na parede, descobriram. Ou, quando descobrem, fazem como muitos gestores empresariais engajados em problemas sociais e ambientais, colocam tudo dentro da calculadora utilitarista mental que desenvolveram em décadas de socialização e aprendizagem focada nas relações profissionais, um dos estigmas do mercadocentrismo na sociabilidade contemporânea, transformando toda a complexidade social em suco na máquina do voluntariado contemporâneo.

Nesse contexto, toda e qualquer visão que inspire radicalidade é vista com desconfiança, pois as mudanças contemporâneas não se dariam mais pelas revoluções, mas sim por transformações contínuas, sendo o voluntariado o seu melhor exemplo. Assim, no lugar dos ativistas políticos (a maioria deles de origem na esquerda), teríamos os voluntários de final de semana; no lugar das lutas pelos direitos em todas as suas variações modernas (gênero, etnia, deslocados por barragens…), teríamos os empregados (e não os presidentes e diretores de empresas, pois, coitados, são muito atarefados, sic…) das grandes corporações desenvolvendo programas sociais em comunidades estrategicamente selecionadas; no lugar dos diretórios acadêmicos politizados (talvez até em demasia no passado) teríamos os bem adestrados universitários promovendo a coleta seletiva e angariando fundos para os pobres (de preferência só no Natal, pois só no Natal as pessoas passam fome). Novamente, os simplistas vão dizer: então, voltemo-nos ao passado, às armas e às revoltas e façamos a mudança estrutural da sociedade! O grande erro de todo o pensamento médio, muito bem informado, pois hoje todos nós somos hiperinformados e, ao mesmo tempo, desconhecemos tudo, é não conseguir operar com duas idéias opostas na cabeça e ainda assim continuar funcionando, como diria Scott Fitzgerald.

Para que as idéias e as práticas de voluntariado possam efetivamente fazer a sua mea culpa é preciso agir e refletir sobre a sua práxis a partir da complexidade contemporânea, e não estou falando apenas de ler com atenção e sem linearidade Edgar Morin, mas sim de conceber políticas, programas e projetos a partir de suas dualidades, contradições e paradoxos, levando em conta todas as armadilhas que a vida reserva para tudo. Só assim, e não através de cursinhos de uma verdadeira indústria de gerenciamento do Terceiro Setor montada nos últimos anos, que pouco ensinam e mais doutrinam do que preparam para a ação social e que, graças a Deus, já começam a desaparecer, é que a ação voluntária poderá trazer as respostas que todos esperam.

Dentre os desafios que se apresentam, os principais são: a) respeitar práticas e costumes locais com forte vínculo cultural e religioso como a piedade, a caridade e a compaixão sem cair no assistencialismo travestido de boa gestão da maioria absoluta das ONGs contemporâneas; b) obter o envolvimento em práticas cotidianas de ação social ao mesmo tempo em que engajam esses mesmos voluntários em lutas políticas de transformação estrutural das sociedades; c) estabelecer acordos e ações conjuntas sem cair no lugar confortável das parcerias (que soam como sinfonia para os neoconservadores modernos) e também sem deixar de operar a partir do conflito com empresas, governos, mídia e quaisquer outros grupos detentores de grande poder; d) deixar que cada indivíduo, da forma mais autônoma e livre possível, encontre seu equilíbrio pessoal sem ser doutrinado pelos treinamentos, encontros e workshops autoritários de auto-ajuda que versejam nas práticas de voluntariado, mas também deixá-los a todo momento incomodados, amedrontados (para o filósofo Hans Jonas o medo é o caminho para a construção da ética nas sociedades contemporâneas) e indignados com toda e qualquer forma, inclusive as mais sutis, de dominação, injustiça e opressão.

Se você, caro leitor, me aturou até agora, pode estar pensado que isso é impossível. Pois bem, na minha vida tenho encontrado indivíduos e organizações, ainda que raros, que conseguem operar com as contradições sem se tornarem bipolares. Nada pior para a verdadeira e transformadora ação social do que operar nos pólos (radicalismo de esquerda ou parcerias, intervenção nos problemas sociais ou ação política, equilíbrio emocional/espiritual ou ativismo socioambiental, caridade ou resultados, improvisação ou gestão, …). Basta colocar no lugar do “ou” o “e”, desconfiar constantemente das certezas pessoais e institucionais e não se esquecer de que não se trata de sempre ficar no ponto médio, neutro ou insosso, pois a mediocridade também habita as zonas médias. Outros podem estar pensando que isso é tarefa apenas para grandes homens e mulheres, ou melhor, para as lideranças sociais. Na década que se iniciou com o sofrimento fúnebre de Zilda Arns e dos haitianos, nada mais distante do seu legado do que esperar por grandes líderes sociais, outra bobagem que espero que desapareça dos discursos sobre voluntariado, pois tomando emprestado de Bertolt Brecht, “feliz a nação que não precisa de heróis”. Operar na complexidade e conseguir tirar as práticas de voluntariado de sua mesmice conservadora travestida de consciência social avançada não é tarefa para líderes ou heróis, mas para mulheres, homens e instituições cheios de defeitos, erros e inconsistências, ou seja, para nós todos nós que somos seres humanos e construímos instituições. Caso isso não aconteça, corremos o risco de vivermos mais uma década na qual perdemos o contato, não com a vida extraterrestre de “2010: Uma Odisséia no Espaço”, mas com a nossa própria humanidade.

**Armindo dos Santos de Sousa Teodósio

Professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Administração

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais

www.ateodosio.blogspot.com

www.armindoteodosio.blogspot.com

obs :   Texto escrito em fevereiro de 2010 para o Portal do Voluntário.

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Comentários

One Response para“ Artigo – Voluntariado nos anos de 2010: a década em que perdemos contato? ”

  1. shirlei : fevereiro 22nd, 2010 6:57

    Senhor deputado.
    Vou direto ao assunto Dilma ou Serra, quem sera melhor para o Brasil, os interesses particulares, e de partidos e os proprios, quem sera melhor. O Brasil, precisa de politicos que olhem para o povo fazendo um projeto para mais ou menos 30 anos, tem que continuar os bons programas, temos que pensar como viver com 500, reais. Sera que nossos filhos serao educados, tratados com respeito e amor, nossos jovens hoje, uma porcentagem alta indiferente de classe social, envolvido nas drogas, muito dos os deles nao tem mais sonhos nem perspectiva de vida porque sera, Sei que o Lula teve a melhor das intençoes, louvo seu gesto enviar aquela quantia em dinheio para o haiti, e nossas prefeituras, arroxadas, com pouco dinheiro para o social. Este pais e enorme mas e abencoado, porque sr deputado que vai a trancos e barrancos. atenciosamente shirlei.

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