Cemitério Dom Bosco: depósito de indigentes e de adversários da ditadura militar

29 de novembro de 2009 · Imprima este texto

A Folha de São Paulo publicou no último sábado, 28, matéria sobre um cemitério feito pelo ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf, hoje deputado federal, e que contou com a participação do atual senador Romeu Tuma e do diretor da Eletrobrás Miguel Colasuonno, na ocultação de cadáveres de opositores da ditadura nos cemitérios de Perus e da Vila Formosa, em São Paulo, na década de 70. Reproduzimos a matéria e parabenizamos a Folha pela mesma.

Folha de São Paulo

Brasil

Ministro elogia ação contra civis no caso Perus

DA REPORTAGEM LOCAL

Ministério Público acusa Paulo Maluf e Romeu Tuma de envolvimento na ocultação de cadáveres de opositores da ditadura

Vannuchi diz que líderes civis deram sustentação ao regime e por isso não é justo que o debate fique centrado apenas nas Forças Armadas

O ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) comemorou ontem a primeira ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal de São Paulo contra civis que tiveram participação em fatos da repressão na ditadura militar (1964-85).

Em ação apresentada à Justiça, o Ministério Público Federal pediu que o deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), o senador Romeu Tuma (PTB-SP) e o diretor da Eletrobrás Miguel Colasuonno sejam condenados a pagar indenização e percam suas funções públicas ou aposentadorias. Eles são acusados de participar do funcionamento da estrutura que ocultou cadáveres de opositores da ditadura nos cemitérios de Perus e da Vila Formosa, em São Paulo, na década de 70.

Tuma foi responsável pelo Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) de 1967 a 1983. Ontem ele preferiu não se manifestar por não ter conhecimento dos documentos do processo. Maluf e Colasuonno foram prefeitos da capital, de 1969 a 1971 e de 1973 a 1975, respectivamente. Em nota, Maluf disse que é “uma acusação ridícula”. Colasuonno informou que desconhece os fatos das acusações e, por isso, não poderia se manifestar.

Na Unicamp, Vannuchi declarou: “Eu saúdo a iniciativa porque ela reforça a consciência nacional de que o tema não está com ponto final. Lideranças civis e empresariais deram sustentação a esse regime, então não é justo que se faça um debate centralizado unicamente nas Forças Armadas”.

“Quem estudar a história do regime verá que civis foram bater nas portas dos quartéis pedindo que os militares saíssem para depor João Goulart.”

Segundo a denúncia, Maluf ordenou a construção do cemitério de Perus, com quadras marcadas para “terroristas”. O projeto da prefeitura incluiu a construção de um crematório, ideia depois abandonada. Na gestão de Colasuonno, de acordo com documentos, o cemitério de Vila Formosa foi reurbanizado, quase impossibilitando a identificação dos locais onde estavam corpos dos militantes.
Tuma foi implicado porque, segundo os procuradores, sabia de mortes ocorridas sob a tutela de policiais do Dops, mas não as comunicou às famílias.

Outros dois nomes na ação são Fábio Pereira Bueno, diretor do Serviço Funerário Municipal entre 1970 e 1974, e o médico legista Harry Shibata, ex-chefe do necrotério do IML.
Os procuradores sugerem que as penas sejam diminuídas caso os réus contem em depoimento fatos que conhecem do período de repressão.

“É inequívoco que havia um esquema e que o cemitério de Perus era um centro de ocultação de cadáveres de militantes políticos”, diz a procuradora da República Eugênia Fávero.

A Unicamp, que recebeu Vannuchi ontem, é um dos alvos da segunda ação do MPF. Nela, os procuradores pedem a responsabilização de funcionários e universidades porque houve descaso na identificação das ossadas localizadas em Perus e exumadas em 1990. As universidades implicadas são Unicamp, Universidade Federal de Minas Gerais e USP.

A Procuradoria pede, em liminar, a retomada do trabalho de identificação das ossadas. O órgão apresentou no passado ações, em andamento, que buscam responsabilizar militares por crimes da ditadura. Como se tratam de desaparecimento de pessoas, os procuradores entendem que se equivalem ao crime de sequestro -por não terem sido localizadas, esses crimes não seriam anistiáveis.

Cemitério foi criado durante regime militar

O Cemitério Dom Bosco, em Perus (zona norte) foi inaugurado em 1971, na primeira gestão de Paulo Maluf na Prefeitura de São Paulo, e logo se tornou um depósito de indigentes e de adversários da ditadura militar (1964-1985).

Fazia parte do projeto a construção de um crematório, item que foi abandonado em 1976. Muitas ossadas já exumadas foram enterradas naquele ano numa vala clandestina.
A partir de 1973 familiares de desaparecidos começaram a perceber que o cemitério recebia cadáveres de guerrilheiros, enterrados com nomes falsos.

Em 4 de setembro de 1990, na gestão da prefeita Luiza Erundina, foi achada a vala clandestina com 1.570 ossadas -das quais 1.049 eram de adultos. Foram enviadas à Unicamp, que identificou os militantes Dênis Antônio Casemiro e Frederico Eduardo Mayr (da vala clandestina) e Sônia Maria de Moraes Angel Jones, Antônio Carlos Bicalho Lana, Helber José Gomes Goulart e Emanuel Bezerra dos Santos (das covas regulares).

Em 1993 o trabalho parou e, em 1999, a Unicamp extinguiu o Departamento de Medicina Legal. Em 2000 as ossadas são então transferidas para a USP, que em 2005 identificou os guerrilheiros Flávio Carvalho Molina (do Molipo) e, em 2006, Luiz José da Cunha (da ALN).

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